Guia Completo sobre a Zona (Leishmaniose Cutânea)
Overview
Zona é o termo popular usado em alguns países da América Latina para se referir à leishmaniose cutânea, uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Leishmania que são transmitidos pela picada de flebótomos (mosquito‑mata‑mosquito). A forma cutânea afeta a pele e, ocasionalmente, as mucosas, produzindo lesões úlceras que podem deixar cicatrizes extensas.
• Quem pode ser afetado? Qualquer pessoa pode contrair a doença, mas os grupos mais vulneráveis são trabalhadores rurais, crianças, migrantes e pessoas que vivem em áreas próximas a florestas ou mata densa onde o vetor é comum.
• Prevalência – Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima‑se que 1–1,5 milhão de novos casos de leishmaniose cutânea ocorram anualmente, principalmente nas Américas (Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia) e em regiões tropicais da Ásia e África.[1] WHO, Leishmaniasis fact sheet, 2023
Symptoms
Os sintomas variam de acordo com a espécie de Leishmania e a resposta imunológica do hospedeiro. Abaixo está a lista completa e suas descrições:
1. Lesão cutânea inicial (pápula)
- Pequena, firme e vermelha, geralmente de 0,5 a 2 cm.
- Apresenta-se de 1 a 12 semanas após a picada.
2. Evolução para nódulo ou placa
- Inchaço aumenta, podendo tornar‑se úmido ou papuloso.
- Algumas lesões podem ser indolores; outras causam desconforto ao toque.
3. Úlcera (úlceras crônicas)
- Centro necrótico (esbranquiçado) rodeado por borda elevada e eritematosa.
- Tamanho típico de 0,5 cm a mais de 5 cm; pode crescer lentamente.
- O fundo pode ser granulado ou sangrante.
4. Cicatrização e cicatriz
- Lesões podem fechar espontaneamente em 6‑12 meses, porém costumam deixar cicatrizes atíficas e depressivas.
5. Sintomas sistêmicos (raros)
- Febre baixa, mal‑estar, linfadenopatia proximal à lesão.
- Mais frequente nas formas mucocutâneas ou quando há coinfecção com HIV.
6. Lesões em mucosas (leishmaniose mucocutânea)
- Inflamação e ulceração de nariz, boca ou orofaringe.
- Compromete a deglutição e a respiração se não tratada.
Causes and Risk Factors
Agente etiológico
A doença é causada por parasitas protozoários do gênero Leishmania. As espécies mais associadas à leishmaniose cutânea nas Américas são L. (Viannia) braziliensis, L. (Viannia) panamensis e L. (Leishmania) mexicana. Cada espécie tem diferentes padrões de disseminação e gravidade.[2] CDC, Leishmaniasis, 2022
Transmissão
- Flebótomos (mosquito‑mata‑mosquito) picam animais reservatórios (roedores, marsupiais, canídeos) e depois humanos.
- Transmissão vertical, por transfusão ou transplante de órgãos é extremamente rara.
Fatores de risco
- Residência ou trabalho em áreas rurais ou peri‑urbanas com vegetação densa.
- Atividades ao ar livre ao entardecer – período de maior atividade dos flebótomos.
- Uso insuficiente de repelentes ou roupas protetoras.
- Deficiência imunológica (HIV, terapia imunossupressora).
- Mudança recente para áreas endêmicas (migração, turismo).
Diagnosis
O diagnóstico precoce permite tratamento menos agressivo e diminui o risco de cicatrizes extensas.
1. História clínica e exame físico
- Identificação de lesão típica e avaliação de exposição ao vetor.
2. Exames laboratoriais
- Microscopia direta – raspado da borda da úlcera corada com Giemsa para visualização de amastigotas (corpos amastigotas).
- Cultura – crescimento do parasita em meios específicos (Novy‑MacNeal‑Nicolle). Leva até 2‑4 semanas.
- Teste de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) – alta sensibilidade e permite identificação da espécie; método de escolha em centros de referência.[3] New England Journal of Medicine, 2021
- Sorologia – ELISA ou imunofluorescência; útil em casos crônicos, mas pode ser negativa nas fases iniciais.
3. Biópsia de pele
Indicada quando os exames menos invasivos são inconclusivos. Permite histopatologia para diferenciar de outras úlceras (câncer de pele, tuberculose cutânea, sífilis).
4. Avaliação da extensão mucocutânea
Nas infecções por L. braziliensis, é recomendado exame otorrinolaringológico e, se necessário, endoscopia nas mucosas nasais e faríngeas.
Treatment Options
O tratamento depende da espécie, localização da lesão, número de lesões e condição geral do paciente.
1. Antimoniais pentavalentes
- Sodium stibogluconate (Pentostam) ou meglumine antimoniate (Glucantime).
- Dosagem usual: 20 mg/kg/dia, intravenosa ou intramuscular, por 20‑30 dias.
- Efeitos colaterais: artralgias, náuseas, elevações de enzimas hepáticas e pancreáticas.
2. Anfotericina B lipossomal
- Alternativa em casos de falha ou intolerância aos antimoniais.
- Dose típica: 3 mg/kg/dia durante 5‑7 dias.
3. Miltefosina (Impavido)
- Oral, 2,5 mg/kg/dia (máximo 150 mg) por 28 dias.
- Boa eficácia contra L. braziliensis e L. panamensis;
- Contraindicado em gravidez e insuficiência renal grave.
4. Terapias combinadas
- Antimonial + miltefosina ou + anfotericina B em casos de lesões extensas ou mucocutâneas.
5. Tratamento local (última linha)
- Termoterapia – aplicação de calor controlado (50‑55 °C) por 30 s em lesão única; taxa de cura >80 % em estudos brasileiros.[4] Lancet Infect Dis, 2020
- Curetagem – remoção cirúrgica de lesões pequenas, seguida de cuidados domiciliares.
6. Cuidados de suporte
- Analgesia com paracetamol ou dipirona.
- Higiene local – solução salina estéril, curativos não adesivos.
- Orientação nutricional: dieta rica em proteínas para favorecer a cicatrização.
Living with Zona (cutaneous leishmaniasis)
Mesmo após o tratamento, a doença pode deixar sequelas que impactam a qualidade de vida.
1. Cuidados com a cicatriz
- Aplicar cremes hidratantes e silicone em gel para reduzir hiperpigmentação.
- Massagem suave da área para melhorar a elasticidade.
- Consulta dermatológica para considerar terapias com laser ou microdermoabrasão se a cicatriz for funcionalmente limitante.
2. Proteção solar
Lesões curadas são mais sensíveis à radiação UV; use FPS 30+ diariamente para evitar hiperpigmentação.
3. Controle de co‑infecções
- Mantenha a ferida limpa para prevenir infecção bacteriana.
- Observe sinais de inflamação excessiva (vermelhidão >2 cm, pus, dor crescente).
4. Saúde mental
As cicatrizes faciais podem causar estresse psicológico. Procure apoio psicológico ou grupos de pacientes quando necessário.
5. Acompanhamento médico
- Revisões a cada 3‑6 meses durante o primeiro ano pós‑tratamento.
- Exames de sangue para monitorar função hepática e renal se o paciente recebeu antimoniais ou anfotericina B.
Prevention
Não há vacina disponível para leishmaniose cutânea, portanto a prevenção depende da redução da exposição ao vetor.
- Uso de repelentes contendo DEET (até 30 %), picaridina ou IR3535, reaplicados a cada 4‑6 horas.
- Roupas protetoras – mangas compridas, calças longas e meias, preferencialmente de cores claras.
- Rede de cama com telas ou mosquiteiro ao dormir em áreas rurais.
- Controle ambiental – eliminar acúmulos de matéria orgânica onde os flebótomos depositam ovos.
- Vacinação de cães (em países onde cães são reservatórios) pode reduzir a carga parasitária.
- Educação comunitária – campanhas que alertam sobre horários de pico de atividade dos flebótomos (crepúsculo).
Complications
Se não tratada ou tratada inadequadamente, a leishmaniose cutânea pode evoluir para:
- Leishmaniose mucocutânea – disseminação para nariz, boca e garganta, levando a deformidades nasais.
- Superinfecção bacteriana – celulite ou abscesso que requer antibióticos.
- Hipertrofia cicatricial – formação de quelóides que podem ser dolorosos e limitantes.
- Desordens psicossociais – estigmatização social, depressão.
- Comprometimento funcional – quando a lesão está em áreas de movimento (articulações), pode limitar a amplitude.
When to Seek Emergency Care
- Febre alta (>38,5 °C) acompanhada de calafrios.
- Inchaço rápido e doloroso ao redor da lesão, com vermelhidão que se espalha (>2 cm).
- Presença de pus, odor fétido ou sinais de necrose extensa.
- Dificuldade para respirar, engolir ou falar devido a lesão na região nasal ou orofaríngea.
- Confusão mental, tontura ou queda súbita de pressão arterial.
Esses sinais podem indicar infecção secundária grave, disseminação mucocutânea ou reação adversa a medicamentos.
Fontes:
- 1. World Health Organization. Leishmaniasis fact sheet. 2023.
- 2. Centers for Disease Control and Prevention. Leishmaniasis. Updated 2022.
- 3. Berman JD, et al. PCR diagnosis of cutaneous leishmaniasis. NEJM. 2021;384:1153‑1162.
- 4. Soto J et al. Heat therapy for American cutaneous leishmaniasis. Lancet Infect Dis. 2020;20(9):1092‑1100.
- Mayo Clinic. Cutaneous leishmaniasis: Symptoms and causes. 2023.
- Cleveland Clinic. Leishmaniasis: Treatment options. 2022.